
Francisco de Sá de Miranda
Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo,
Não posso viver comigo,
Não posso fugir de mim.
Com dor, de gente fugia,
Antes que esta assim crescesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo,
Tamanho imigo de mim?
Comigo me desavim... é considerada uma das mais belas composições da língua portuguesa. Nela, o poeta discrre sobre a duplicidade do seu “eu”. Em grandes linhas, trata-se dum conflito que perturba o sujeito lírico.
O título, Comigo me desavim..., represente também o primeiro verso e, no mesmo tempo, dá a conhecer o tema da poema. O tema do duplo é um tema raro na literatura do seculo, mas um tema fundamental da toda a literatura.
Do ponto de vista da estrutura formal, Comigo me desavim... parece estar na confluência entre a medida velha e a medida nova. A primeira estrofe tem quatro versos e faz o leitor entrar no universo instável do sujeito lírico. A segunda estrofe é composta de oito versos que aprofundam os sentimentos perturbados. Os versos possuem ritmo e cadência determinados pela esquema de rimas interpoladas.
A utilisação do pronome pessoal comigo enfatiza o conflito interior, o sentido de estar duplo. No teatro do seu imaginário, o sujeito lírico é o espectador do drama da sua propria duplicidade: não posso viver comigo/nem posso fugir de mim.
Antes, o conflito era externo com dor, da gente fugia, mas agora é interiorizado: já fugiria/ de mim, se de mim pudesse. Estes versos põem também em releve a luta do eu pela sua autoconservação, o medo imemorial de se perder o próprio si. Então, o sujeiro lírico vive a experiência paradoxal de se perceber no mesmo tempo uno e duplo. Nessa condição, o sujeito lírico conhece os estados emocionais desse outro e acaba à ser afexado pela sua experiência.
O poema termina-se com uma interogação retorica: que meio espero ou que fim/ do vão trabalho que sigo,/ pois que trago a mim comigo,/ tamanho imigo de mim? O maior recurso estilístico utilizado aquí é o da antítese. As antíteses comigo - imigo (de inimigo), agora - antes, não posso viver – não posso fugir contribuiam para que os sentidos se desestabilizem continuamente.
En conclusão, Comigo me desavim... de Francisco de Sá de Miranda se inscreve ao lado de Vilacente seu de Bernardim de Ribeiro e de Mote seu de Luis Vaz de Camões nos poemas do duplo.
Sem comentários:
Enviar um comentário