Casinha desprezível, mal
forrada...
Francisco Manuel de Melo
Escritor
multifacetado, Francisco Manuel de Melo (1608 – 1666), é considerado uma das
personalidades portuguesas mais proeminentes do século XVII. A nível literário
é uma figura considerável da cultura aristocrática peninsular do seu tempo. O
seu trabalho bilingue comporta comédias, novelas, versos líricos e, pensa-se,
algumas sátiras que se terão perdido.
O corpo dos
sonetos de Dom Francisco Manuel de Melo é considerado ser desigual, com o sublime ao lado do
trivial, como, julgo. A sua poesia, se bem que agregue toda uma herança
conceptista, tem marca própria e, por vezes, um humor muito vivo, até quando
refere as suas desgraças e prisões. Tal é o caso do Soneto (Casinha desprezível, mal
forrada...).
O corpo dos
sonetos de Dom Francisco Manuel de Melo é considerado ser desigual, com o sublime ao lado do
trivial, como, julgo. A sua poesia, se bem que agregue toda uma herança
conceptista, tem marca própria e, por vezes, um humor muito vivo, até quando
refere as suas desgraças e prisões. Tal é o caso do Soneto (Casinha desprezível, mal
forrada...).
Composto de duas quadras seguidas de dois tercetos, num
total de 14 versos, o poema Soneto (Casinha desprezível, mal forrada...)
é um soneto. Nele, o poeta discorre sobre o desencanto e a brevidade da vida, a inconstância da
sorte e a presença da morte. Por vezes, este poema pode ser considerado como a
expressão dum drama pessoal, por vezes camuflado
em tom irónico e humorístico. Este soneto descritivo retrata, de formas simples e singulares
um lugar escuro e desagradável.
Do ponto de vista da estrutura formal, é uma medida decassílabo nova, um
soneto. Os versos possuem ritmo e cadência determinados peloesquema das rimas
interpoladas.
A
descrição está organizada do geral para o particular: dos aspectos gerais (desprezível, mal forrada), às condições
físicas do local (furna, escura, com uma
fresta pequena, grade bem segura), aos objectos (porta, cama, mesa), aos animais (pulga, cão, rato). A carga de negatividade é transmitida, entre
outras, pelas seguintes expressões: "Casinha desprezível",
"inferno escuro", "destroncada", "coutadinho"; a
presença daqueles animais (pulga, cão, rato) e a forma como estão
caracterizados; no verso 12 (Sem amor, sem amigo, sem parente) o
uso triplo da preposição "sem" destaca a ideia de privação. A
"casinha desprezível" pode ser uma metáfora de "prisão". Ha
varios elementos que transmitem a idea de prisão: a ausência de
"amor", de "amigo", de "parente", a referência a
"potro" (espécie de cavalo de madeira em que se torturavam os
condenados) e a "grilhão" (corrente metálica com que se prendiam as
pernas aos acusados), a descrição do
local: Porta só para entrar, logo fechada.
O
poema acaba num verso: Tal
vida levo. Santo prol me faça. e apresenta-se como a conclusão global de toda a descrição
feita nos versos anteriores e também como a contradição de tudo
o que foi afirmado anteriormente.
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