quarta-feira, 20 de junho de 2012

Soneto de Francisco Manuel de Melo

Casinha desprezível, mal forrada...

Francisco Manuel de Melo




     Escritor multifacetado, Francisco Manuel de Melo (1608 – 1666), é considerado uma das personalidades portuguesas mais proeminentes do século XVII. A nível literário é uma figura considerável da cultura aristocrática peninsular do seu tempo. O seu trabalho bilingue comporta comédias, novelas, versos líricos e, pensa-se, algumas sátiras que se terão perdido.
      O corpo dos sonetos de Dom Francisco Manuel de Melo  é considerado ser desigual, com o sublime ao lado do trivial, como,  julgo. A sua poesia, se bem que agregue toda uma herança conceptista, tem marca própria e, por vezes, um humor muito vivo, até quando refere as suas desgraças e prisões. Tal é o caso do Soneto (Casinha desprezível, mal forrada...).
Composto de duas quadras seguidas de dois tercetos, num total de 14 versos, o poema Soneto (Casinha desprezível, mal forrada...) é um soneto. Nele, o poeta discorre sobre o desencanto e a brevidade da vida, a inconstância da sorte e a presença da morte. Por vezes, este poema pode ser considerado como a expressão dum drama pessoal, por vezes camuflado em tom irónico e humorístico. Este soneto descritivo retrata, de formas simples e singulares um lugar escuro e desagradável.
Do ponto de vista da estrutura formal, é uma medida decassílabo nova, um soneto. Os versos possuem ritmo e cadência determinados peloesquema das rimas interpoladas.
A descrição está organizada do geral para o particular: dos aspectos gerais (desprezível, mal forrada), às condições físicas do local (furna, escura, com uma fresta pequena, grade bem segura), aos objectos (porta, cama, mesa), aos animais (pulga, cão, rato). A carga de negatividade é transmitida, entre outras, pelas seguintes expressões: "Casinha desprezível", "inferno escuro", "destroncada", "coutadinho"; a presença daqueles animais (pulga, cão, rato) e a forma como estão caracterizados; no verso 12 (Sem amor, sem amigo, sem parente) o uso triplo da preposição "sem" destaca a ideia de privação. A "casinha desprezível" pode ser uma metáfora de "prisão". Ha varios elementos que transmitem a idea de prisão: a ausência de "amor", de "amigo", de "parente", a referência a "potro" (espécie de cavalo de madeira em que se torturavam os condenados) e a "grilhão" (corrente metálica com que se prendiam as pernas aos acusados),  a descrição do local: Porta só para entrar, logo fechada.
O poema acaba num verso: Tal vida levo. Santo prol me faça. e apresenta-se como a conclusão global de toda a descrição feita nos versos anteriores e também como a contradição de tudo o que foi afirmado anteriormente.

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